O espaço/ambiente de gravação é a cidade de Florianópolis (capital do Estado de Santa Catarina), e também conhecida internacionalmente como a “Ilha da Magia”, localizada na região sul do país. A trama narra à história de João, que ao completar 18 anos, se depara com uma situação triste em sua vida, ao descobrir ser portador do vírus HIV e incide a viver as consternações da doença, e também é afetado com a decorrência do preconceito das pessoas que estão ao seu redor. Porém, aliviada com a amizade: o amor e companheirismo. Assim, a série oferece uma fotografia dolorosa de nossa mortalidade, de nossa vitalidade e de nossa vivacidade, e interpreta a fundo o significado da palavra companheirismo.
Por
sua verossimilhança, Anjo do Mar remete bastante aos longas-metragens e curtas-metragens
produzidos no Brasil na contemporaneidade, que são estrelados por moços, moças,
que representa a juventude, como, Do
começo ao Fim (2009)[2] e Hoje Não Quero Voltar Sozinho (2010)[3].
Com
uma nítida meiguice em seus personagens, sejam eles Mulheres ou Homens, Anjo do Mar é uma série que encanta pela sua Arte
Poética, pelo seu sentimento romântico (Um Amor desconhecido) que transporta
consigo, demonstrando um aprofundamento relevante ao contexto da série, devido aos
seus protagonistas, por exemplo, as personagens João e Mário. Também por confiar
em um caráter de série há muito desamparado pela sociedade num todo.
A
história tem como foco o casal de homossexuais, João e Ricardo, que parece ser
diferenciado, especial talvez porque a mamãe do João, aceita e respeita a orientação
sexual de seu amado filho. A ação desencadeia uma descontinuidade na vida de
João, pois o momento de sua vida se encontra em completo abalo, em que ele
precisa de compreensão e cuidados de seus ententes queridos. Seu namorado,
Ricardo, ao saber sobre a doença de João, apresentou uma reação de preconceito
e de estranheza na consequência dele, no qual efetivou o afastamento dos corpos
(Ora, faz menção aos relacionamentos descartáveis, fenômeno esse contemplado em
nossa sociedade contemporânea).
Sua
interação e voz são inteligentes, João demonstra autonomia e total controle de
sua vida. Ele, um Homem de caráter elevado, um ser dotado de sabedoria e do
mais belo da criação: a Arte Poética. Vejamos os versos de João,
Hoje,
Escrevo
esperando que alguma coisa aconteça,
Que
um anjo apareça
Que
o mar encaminhe o meu pedido
Não
preciso escrever o que tô sentindo
Basta
saber que há dor, desespero, medo.
Mas
existe também uma faísca de esperança
E
em todos os lugares que eu li
E
em tudo que eu ouvi
Me
disseram que não havia saída
Mas
existe em mim uma fé que resiste,
E
me diz que qualquer coisa pode ser possível
Uma
cura, uma alternativa, um poder especial
Deve
ser porque acima de tudo, ainda habita em mim o amor
E
eu apelarei para tudo que puder me salvar
Que
eu encontre o meu anjo do mar
Assinado
Nereu (o mensageiro náufrago).
João
se realiza pelo dom da escrita, um poeta, o escritor de cartas para o “anjo do
mar”. A escrita é uma vitória pessoal, um homem que conquistou seu destino e
por esta travessia segue a construção dos personagens. Era um dia como outro qualquer, surge aquele
memento de segundos em que tudo se transforma. João se encontra com seu anjo (é
uma ação forte e impressionante), que lhe ajuda.
A
aventura em si, é carregada de emoções e interação, mas pela construção de um universo
onde o olhar da juventude é predominante, mesmo que haja a presença de adultos
em cena. Todavia, é dessa maneira que a visão do personagem, Mário, é posta em
cheque, por sua ideologia íntegra, que aos poucos estrutura o Amor na trama,
tanto no sentido de ajudar um desconhecido. Ele está simbolicamente movido por
sua angelicalidade, realizando esforços para ajudar os planos de João. O trágico,
o fantástico, o maravilhoso da série é percebido nessa grande sacada do
roteiro: o amor ao desconhecido. A esse respeito, Braz e Gatto (2014)[4],
O homem é
fragmentado, perdido, não sabe para onde correr e porque correr. No entanto,
quando o homem se vê na condição do outro, se põe em seu lugar e passa a sentir
o que o outro sente, ele passa compreendê-lo. Este é caminho da humanização;
nesse universo chamado desumanização. (BRAZ e GATTO, 2014, p. 12)
Referente
ao amor ao desconhecido, José de Mesquita[5], sobressai:
— É como lhe digo: nós amamos muito
mais os desconhecidos. Parece absurda a minha asserção, mas é perfeitamente
natural e humana, como tantas outras coisas que parecem absurdas, sem que o
sejam. Haverá nada mais comum do que a observação de que somos mais cortezes e
afáveis com aqueles que vemos pela primeira vez do que com os nossos mais
íntimos e velhos camaradas? Isso explica até certo ponto um principio de
psychologia que eu tenho longa e diuturnamente observado e que, si bem que nos
repugne é, todavia, real como a mesma realidade. Quero referir-me a essa
anomalia psychica que nos faz, mau grado a nós mesmos, rudes e seccos com as
pessoas que mais estimamos, o que tem feito dizer a certos observadores da alma
humana que o amor tem as suas raizes no ódio — la haine des sexes, de
Bourget - reconhecida por D‘ Annunzio como o fundo mesmo do amor... (MESQUITA,
1932, p. 8)
E
acrescenta:
Esse amor aos desconhecidos pode ser um defeito de
organização psychica, mas é muito mais commum do que parece. Ha nisso, talvez,
uma influencia de educação mesclada a outras causas ancestraes, daquellas que
Dante tão bem analysou...
Nós todos que
bebemos o leite do romantismo — pois que esta geração de decadentes é filha do
consorcio hybrido da escola romântica com o naturalismo — amamos o mysterio,
as aventuras, as attitudes estudadas... (MESQUITA, 1932, p. 9) (grifos nosso)
Sendo
assim, em Anjo do Mar, vislumbramos
uma travessia terrivelmente honesta. Uma fotografia que pode abrolhar um ar pessimista,
no entanto, que é uma simples realidade da vida humana, atos próximos de muitos
e também o mau sonho de outros.
Portanto,
Anjo do Mar é uma série que merece ser vista. Mesmo expondo um caso específico,
ela presta uma nobre função em nossa sociedade: a reflexão sobre o preconceito e
o amor ao desconhecido:
por conta do imprevisto e do inesperado, ―somos
inclinados a esperar sempre o melhor daquilo que não conhecemos...‖ (p.11); um
olhar de um desconhecido pode despertar nossa felicidade por conta do que ele
está pensando; temos impulso de atrair a atenção dos desconhecidos; as
aventuras mais profundas se revelam nas circunstâncias mais fugazes: um gesto,
um olhar ou um sorriso clandestino; um elemento da insurgência do desconhecido
está no desejo de solidão que se combinará à arte: ―[...] Os grandes, os verdadeiros
Mestres escrevem para o futuro ou para os estranhos‖ (p.12) em estado de
clausura. Ora, vestígios da trágica condição do homem moderno, esvaziado de
conteúdo religioso, absorvidas pela lírica da alma. (BRAZ e GATTO,
2014, p. 48)
[4] Braz, Vagner Vainer Teixeira. A Representação (ou Efeito) do Trágico no Conto “O Amigo dos
Desconhecidos”, de José de Mesquita. -- Pontes e Lacerda-MT / Vagner Vainer
Teixeira Braz. 2014. Orientador: Prof. Dr. Dante Gatto. Universidade do Estado
de Mato Grosso. Campus Universitário
de Pontes e Lacerda. Faculdade de Linguagem e Zootecnia. Coordenação de Letras.
2014.
[5]
MESQUITA,
José de. O amigo dos desconhecidos. In: Espelho das almas. Biblioteca
Virtual José de Mesquita: http://www.jmesquita.brtdata.com.br/bvjmesquita.htm.
p. 6-17. 1932.



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