AMOR DESCONHECIDO: A Série o “Anjo do Mar” - de Vagner Braz

Anjo do Mar[1] é uma Série independente produzida pelo CAIS - Coletivo Audiovisual Itinerante de Séries com apoio da Circuito TV- A Ilha e do Projeto CAGAY. 


O espaço/ambiente de gravação é a cidade de Florianópolis (capital do Estado de Santa Catarina), e também conhecida internacionalmente como a “Ilha da Magia”, localizada na região sul do país. A trama narra à história de João, que ao completar 18 anos, se depara com uma situação triste em sua vida, ao descobrir ser portador do vírus HIV e incide a viver as consternações da doença, e também é afetado com a decorrência do preconceito das pessoas que estão ao seu redor. Porém, aliviada com a amizade: o amor e companheirismo. Assim, a série oferece uma fotografia dolorosa de nossa mortalidade, de nossa vitalidade e de nossa vivacidade, e interpreta a fundo o significado da palavra companheirismo.


Por sua verossimilhança, Anjo do Mar remete bastante aos longas-metragens e curtas-metragens produzidos no Brasil na contemporaneidade, que são estrelados por moços, moças, que representa a juventude, como, Do começo ao Fim (2009)[2] e Hoje Não Quero Voltar Sozinho (2010)[3].
Com uma nítida meiguice em seus personagens, sejam eles Mulheres ou Homens, Anjo do Mar é uma série que encanta pela sua Arte Poética, pelo seu sentimento romântico (Um Amor desconhecido) que transporta consigo, demonstrando um aprofundamento relevante ao contexto da série, devido aos seus protagonistas, por exemplo, as personagens João e Mário. Também por confiar em um caráter de série há muito desamparado pela sociedade num todo.

A história tem como foco o casal de homossexuais, João e Ricardo, que parece ser diferenciado, especial talvez porque a mamãe do João, aceita e respeita a orientação sexual de seu amado filho. A ação desencadeia uma descontinuidade na vida de João, pois o momento de sua vida se encontra em completo abalo, em que ele precisa de compreensão e cuidados de seus ententes queridos. Seu namorado, Ricardo, ao saber sobre a doença de João, apresentou uma reação de preconceito e de estranheza na consequência dele, no qual efetivou o afastamento dos corpos (Ora, faz menção aos relacionamentos descartáveis, fenômeno esse contemplado em nossa sociedade contemporânea).

Sua interação e voz são inteligentes, João demonstra autonomia e total controle de sua vida. Ele, um Homem de caráter elevado, um ser dotado de sabedoria e do mais belo da criação: a Arte Poética. Vejamos os versos de João,



Hoje,
Escrevo esperando que alguma coisa aconteça,
Que um anjo apareça
Que o mar encaminhe o meu pedido
Não preciso escrever o que tô sentindo
Basta saber que há dor, desespero, medo.
Mas existe também uma faísca de esperança
E em todos os lugares que eu li
E em tudo que eu ouvi
Me disseram que não havia saída
Mas existe em mim uma fé que resiste,
E me diz que qualquer coisa pode ser possível
Uma cura, uma alternativa, um poder especial
Deve ser porque acima de tudo, ainda habita em mim o amor
E eu apelarei para tudo que puder me salvar
Que eu encontre o meu anjo do mar
Assinado Nereu (o mensageiro náufrago).


João se realiza pelo dom da escrita, um poeta, o escritor de cartas para o “anjo do mar”. A escrita é uma vitória pessoal, um homem que conquistou seu destino e por esta travessia segue a construção dos personagens. Era um dia como outro qualquer, surge aquele memento de segundos em que tudo se transforma. João se encontra com seu anjo (é uma ação forte e impressionante), que lhe ajuda.

A aventura em si, é carregada de emoções e interação, mas pela construção de um universo onde o olhar da juventude é predominante, mesmo que haja a presença de adultos em cena. Todavia, é dessa maneira que a visão do personagem, Mário, é posta em cheque, por sua ideologia íntegra, que aos poucos estrutura o Amor na trama, tanto no sentido de ajudar um desconhecido. Ele está simbolicamente movido por sua angelicalidade, realizando esforços para ajudar os planos de João. O trágico, o fantástico, o maravilhoso da série é percebido nessa grande sacada do roteiro: o amor ao desconhecido. A esse respeito, Braz e Gatto (2014)[4],

O homem é fragmentado, perdido, não sabe para onde correr e porque correr. No entanto, quando o homem se vê na condição do outro, se põe em seu lugar e passa a sentir o que o outro sente, ele passa compreendê-lo. Este é caminho da humanização; nesse universo chamado desumanização. (BRAZ e GATTO, 2014, p. 12)


Referente ao amor ao desconhecido, José de Mesquita[5], sobressai:

— É como lhe digo: nós amamos muito mais os desconhecidos. Parece absurda a minha asserção, mas é perfeitamente natural e humana, como tantas outras coisas que parecem absurdas, sem que o sejam. Haverá nada mais comum do que a observação de que somos mais cortezes e afáveis com aqueles que vemos pela primeira vez do que com os nossos mais íntimos e velhos camaradas? Isso explica até certo ponto um principio de psychologia que eu tenho longa e diuturnamente observado e que, si bem que nos repugne é, todavia, real como a mesma realidade. Quero referir-me a essa anomalia psychica que nos faz, mau grado a nós mesmos, rudes e seccos com as pessoas que mais estimamos, o que tem feito dizer a certos observadores da alma humana que o amor tem as suas raizes no ódio — la haine des sexes, de Bourget - reconhecida por D‘ Annunzio como o fundo mesmo do amor... (MESQUITA, 1932, p. 8)


E acrescenta:

Esse amor aos desconhecidos pode ser um defeito de organização psychica, mas é muito mais commum do que parece. Ha nisso, talvez, uma influencia de educação mesclada a outras causas ancestraes, daquellas que Dante tão bem analysou...
Nós todos que bebemos o leite do romantismo — pois que esta geração de decadentes é filha do consorcio hybrido da escola romântica com o naturalismo — amamos o mysterio, as aventuras, as attitudes estudadas... (MESQUITA, 1932, p. 9) (grifos nosso)


Sendo assim, em Anjo do Mar, vislumbramos uma travessia terrivelmente honesta. Uma fotografia que pode abrolhar um ar pessimista, no entanto, que é uma simples realidade da vida humana, atos próximos de muitos e também o mau sonho de outros.
Portanto, Anjo do Mar é uma série que merece ser vista. Mesmo expondo um caso específico, ela presta uma nobre função em nossa sociedade: a reflexão sobre o preconceito e o amor ao desconhecido:

por conta do imprevisto e do inesperado, ―somos inclinados a esperar sempre o melhor daquilo que não conhecemos...‖ (p.11); um olhar de um desconhecido pode despertar nossa felicidade por conta do que ele está pensando; temos impulso de atrair a atenção dos desconhecidos; as aventuras mais profundas se revelam nas circunstâncias mais fugazes: um gesto, um olhar ou um sorriso clandestino; um elemento da insurgência do desconhecido está no desejo de solidão que se combinará à arte: ―[...] Os grandes, os verdadeiros Mestres escrevem para o futuro ou para os estranhos‖ (p.12) em estado de clausura. Ora, vestígios da trágica condição do homem moderno, esvaziado de conteúdo religioso, absorvidas pela lírica da alma. (BRAZ e GATTO, 2014, p. 48)




[1] Com 08 episódios, a série estreitou no dia 29 de janeiro, quarta-feira, no Youtube.
[4] Braz, Vagner Vainer Teixeira. A Representação (ou Efeito) do Trágico no Conto “O Amigo dos Desconhecidos”, de José de Mesquita. -- Pontes e Lacerda-MT / Vagner Vainer Teixeira Braz. 2014. Orientador: Prof. Dr. Dante Gatto. Universidade do Estado de Mato Grosso. Campus Universitário de Pontes e Lacerda. Faculdade de Linguagem e Zootecnia. Coordenação de Letras. 2014.
[5] MESQUITA, José de. O amigo dos desconhecidos. In: Espelho das almas. Biblioteca Virtual José de Mesquita: http://www.jmesquita.brtdata.com.br/bvjmesquita.htm. p. 6-17. 1932.
ou no Google+
    Comentários do Blogger
    Comentários do Facebook

0 comentários :

Postar um comentário