Pense-se, por exemplo, na relação que existe entre
o bebedor e o vinho. Não é verdade que o vinho oferece sempre ao bebedor a
mesma satisfação tóxica, que a poesia tem comparado com frequência à satisfação
erótica — comparação, de resto, aceitável do ponto de vista científico? Já
alguma vez se ouviu dizer que o bebedor fosse obrigado a mudar sem descanso de
bebida porque se cansaria rapidamente de uma bebida que permanecesse a mesma?
Pelo contrário, a habituação estreita cada vez mais o laço entre o homem e a
espécie de vinho que ele bebe. Existirá no bebedor uma necessidade de partir
para um país onde o vinho seja mais caro ou o seu consumo proibido, a fim de
estimular por meio de semelhantes obstáculos a sua satisfação decrescente? De
modo nenhum. Basta escutarmos o que dizem os nossos grandes alcoólicos, como
Bócklin, da sua relação com o vinho: evocam a harmonia mais pura e como que um
modelo de casamento feliz. Porque é que a relação do amante com o seu objecto
sexual será tão diferente? (FREUD,
S. Sobre a tendência universal à
depreciação na esfera do amor. (1912). In: Edição Standard Brasileira das
Obras Completas de Sigmund Freud. Vol. 11. Rio de janeiro: Imago editora, 1969.) SOBRE A TENDÊNCIA UNIVERSAL À DEPRECIAÇÃO NA ESFERA DO AMOR – de Freud
Pense-se, por exemplo, na relação que existe entre
o bebedor e o vinho. Não é verdade que o vinho oferece sempre ao bebedor a
mesma satisfação tóxica, que a poesia tem comparado com frequência à satisfação
erótica — comparação, de resto, aceitável do ponto de vista científico? Já
alguma vez se ouviu dizer que o bebedor fosse obrigado a mudar sem descanso de
bebida porque se cansaria rapidamente de uma bebida que permanecesse a mesma?
Pelo contrário, a habituação estreita cada vez mais o laço entre o homem e a
espécie de vinho que ele bebe. Existirá no bebedor uma necessidade de partir
para um país onde o vinho seja mais caro ou o seu consumo proibido, a fim de
estimular por meio de semelhantes obstáculos a sua satisfação decrescente? De
modo nenhum. Basta escutarmos o que dizem os nossos grandes alcoólicos, como
Bócklin, da sua relação com o vinho: evocam a harmonia mais pura e como que um
modelo de casamento feliz. Porque é que a relação do amante com o seu objecto
sexual será tão diferente? (FREUD,
S. Sobre a tendência universal à
depreciação na esfera do amor. (1912). In: Edição Standard Brasileira das
Obras Completas de Sigmund Freud. Vol. 11. Rio de janeiro: Imago editora, 1969.)
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