Enrustidos - parte 2

Depois de toda aquela situação, um tanto inusitada, Jeferson teria de chegar a todo custo no Frick's. Uma lanchonete estilo americana, com um daqueles balcões enormes de ponta a ponta. Na verdade, o Frick's se tornara o pont da cidade mais frequentado por grupos de amigos e pessoas que adoram jogar conversa fora. Mas naquele dia, estava mais para um porto seguro para Jeferson onde ele poderia ancorar seu coração e desafogar suas mágoas com o marujo Danilo, seu melhor amigo.

Ao despontar na esquina logo viu um letreiro luminoso destacando uma construção no fim da rua. Uma antigo prédio rústico com ares vintage abrigava a lanchonete. E ja está lotando, pensou ele na esperança de que Danilo já estivesse lá dentro à sua espera. Ao entrar no recinto pela porta lateral, apontou seu olhar para a última mesa que ficara em frente a porta principal onde costumam sentar na maioria das vezes. E lá estava ele, Danilo se levantara e dera um forte abraço no amigo que ali chegara. Como se o mundo não importasse para eles nem as pessoas ao seu redor, aquele fora o abraço mais demorado da face da terra.

- Pensei que nunca ia chegar irmão, senta aí e me conta esse lance direito - apontou Danilo para a cadeira à sua frente.

- Já está tudo resolvido. Não tenho mais nada a ver com aquele carinha, não. Dei uma lição nele agorinha - disse Jeferson de cabeça baixa em tom de desânimo. Contudo, surpreso, seu amigo apoia carinhosamente a sua mão direita em seu queixo e ergue vagarosamente sua cabeça.

- Então é por isso que você está abatido? Você o encontrou na vinda pra cá? Ele te fez algum mal? O que aconteceu de verdade? Disparou seu amigo, agora olhando firme em seus olhos.

O olhar incisivo de Danilo fizera as bochechas de seu melhor amigo corarem. E por mais doesse falar disso, jeferson sentiu nele uma preocupação jamais vista, como se quisesse protegê-lo. Então, depois de um leve sorriso decidiu contar sobre o encontro no beco e o desabafo repulsivo que teve ao ver seu ex com outra pessoa.

Em meio a conversa, jeferson reparou que seu amigo olhara curioso pra mesa mais a frente onde estavam sentado um garoto de jaqueta preta que aparentemente era o cara mais alto da mesa. Com ele estavam uma garota ruiva, toda caracterizada no estilo punk como se fosse pra algum show de rock. E um garoto ruivo de cara fechada que parecia estar sempre com raiva. Todos na mesa pareciam prestar atenção enquanto a garota tagarelava uma história que atraía a atenção dos garotos. Por que ele olha tanto pra aquela mesa? pensou ele, quando notou que Danilo não foi nada discreto seguindo com um olhar curioso o garoto de jaqueta que seguia em direção ao balcão para pedir uma bebida.

- O que? Não acredito que você tá afim daquele carinha ali? O que você viu nele?
- Sei lá! Só achei ele bonitinho - retrucou Danilo.

- Bonitinho é sinônimo de feio, sabia? replicou Jeferson.

Dando de ombros, Danilo parecia não se importar com a deixa do amigo e não parava de olhar pro balcão. Enquanto Jeferson pensava. Eu aqui descarregando minhas ilusões e ele precisando descolar. Lembrava o quanto o amigo gostava dele de maneira quase fraterna. E se lembrou de quando mudou de escola, Danilo implorou aos seus pais para que lhe transferissem também. Eles se conheciam desde o colegial e entendendo o laço de amizade entre os dois, os Campos cederam ao pedido do filho. Até porque os Campos eram amigos há anos da família Bittencourt e criaram esse forte laço de amizade também no colegial. Hum, acho que tive uma ideia! 

- Pois eu aposto que você consiga falar com ele naquele balcão sem pagar nenhum mico - disparou Jeferson. Como se entendesse o recado, Danilo levanta imediatamente e segue em direção ao balcão devagar o suficiente para perceber que o garoto de jaqueta pedia uma ice ao garçom e resolveu interferir no pedido.

- Duas, por favor - gesticulou apressadamente.
- Não sabia que gostava de ice - falou surpreso o garoto de jaqueta.
- Eu também tenho gostos excêntricos - respondeu sentando ao lado do carinha.
- Não vai pedir alguma coisa pro seu namorado beber? Desculpa, é que não pude deixar de reparar no abraço de vocês deram agora a pouco.
- Imagina, ele não é meu namorado. Jefinho e eu somos grandes amigos.
- Temos uma festinha pra ir daqui há uns 20 minutos. Você topa? Perguntou esperançoso.
- Seria legal mas não posso deixar meu amigo sozinho.
- Desculpa,  eu sou Jacob.
- Danilo.
- Então leva ele. Tem espaço pra mais um no meu carro. Daqui há 20 minutos lá fora?

- Claro - Disse Danilo sorrindo de volta.  Quando já ia voltando pra mesa Jacob o chamou.  Ao se virar percebeu que havia esquecido de levar a garrafa de ice - Ah, quase esqueci.  Que vergonha, pensou ele voltando à mesa e lembrando que perdera a aposta com Jeferson de não pagar mico  ao ir falar com o garoto de jaqueta.

- Bem, Jacob me convidou pra ir a uma festinha mas eu falei que estava com você e só aceitaria ir se fosse comigo.

- Festinha? Jacob? Nossa, você é rápido hein. Se eu te conheço, você já topou de cara antes de vir aqui falar comigo - disse Jeferson desconfiado.
- É...
- Tudo bem, eu disse a mamãe que iria durmir na sua casa. Mas pra onde a gente vai? Disparou ele curioso.

- Ah sei lá, contanto que estejamos bem acompanhados - disse Danilo soltando esse gracelo, mas com a consciência pesada - E a propósito, você ganhou a aposta, tá? - e falou mais baixo ainda querendo que ninguém ouvi-se isso - Eu esqueci a garrafa de ice no balcão quando vir pra cá.

Como bons amigos deram risadas e conversaram sobre algumas coisas enquanto terminavam de comer. Danilo parecia ansioso, espiando o relógio do celular minuto a minuto. Quando Jeferson lhe fez sinal de que o garoto de jaqueta pedia a conta. Fizeram o mesmo. Porém, na hora da saída usaram a porta principal, vendo que os três saíam pela lateral do Frick's. Seguindo na direção do garoto de jaqueta eles perceberam que sua carona para aquela festa seria num jeep. Não um desses qualquer, mais um modelo super sofisticado e atual.

- Oi Jacob, estamos aqui. Esse é meu amigo Jeferson - falou Danilo meu desajeitado.

- Vamos andando então? A Gina já está dentro do carro! Jeferson, você se importa de ir atrás com a Gina e o Brian? Já abrindo a porta traseira-esquerda pra ele. Logo em seguida, deu uma piscadela pro Brian que ainda estava do lado de fora e ele entendeu o recado e entrou em seguida.

- Segurem-se - disse Jacob saindo apressadamente do estacionamento de ré e em seguida entrando bruscamente com o jeep na avenida cantando pneu, o que fez todos no carro vibrarem - Ah, quase esqueci. Pessoal, esse aqui na frente é o Danilo e esse aí atrás é o Jeferson, nossos convidados pra festa. Meninos, vos apresento a dama e o vagabundo. Gina e Brian - ironizou ele. O que fez Brian fechar mais ainda a cara dentro do carro.

- Para com isso, ôh palhaço - disse Brian irritado com aquela situação. Jeferson percebeu que alguma coisa tinha alterado o humor daquele garoto ruivo e marrento muito antes deles entrarem no Frick's e resolveu puxar assunto.
- Eu não sei o que aconteceu com você, Brian, mas eu passei um dia de cão hoje. Depois de ter namorado um tempão escondido, meu ex ter terminou comigo por carta, e meia hora depois de lêr aquele troço eu o encontro num beco se pegando com outro carinha. Tá pouco ou quer mais?

- Pensei que fosse só eu que tivesse que esconder um amor? Disse Brian ainda olhando pela janela.
- É esse negócio é complicado mesmo. Eu tô decidido a não cair mais nessa pra não ser largado a tôa - retrucou Jeferson. Já sabendo onde estava a ferida, decidiu cutuvar a expressiva truculência de Brian - Mas o que aconteceu pra você ficar desse jeito? Tá sofrendo por amor?

Um silêncio inquietante pairou dentro do jeep, todos querendo ouvir o que Brian tinha a dizer. Jacob olha pelo retrovisor e vê que ele ainda olhara de braços cruzados pela janela sem coragem de encarar ninguém dentro do carro e resolve interferir.
- Qual é Brian, dá uma chance pro cara aí. Eu e a Gina também queremos saber, afinal, a gente ama você. 

- É, conta aí maninho - disse Gina, balançando e tentando descruzar os braços do irmão. Quer dizer, todos percebem que ambos são irmãos pela incrível semelhança genética que lhes forneceu uma cor levemente alaranjada aos seus cabelos e as sardas inevitáveis que os ruivos têm em comum. Brian percebera que não poderia ficar calado, a não ser que quisesse estragar o clima de festa antes mesmo dela começar. E decidiu falar alguma coisa.

- Gente, eu só não entendo o que leva um pessoa a brincar com os sentimentos dos outros e não querer levar um namoro a sério. Isso é patético. Digo... sei lá, eu acabei descobrindo isso da pior maneira - desabafou.

Não precisou dizer mais nada. Aliás, ele não disse muita coisa, só desabafou o que estava acontecendo  ironicamente.

Será que Brian gostara de alguém que não o correspondeu? Ou será que ele teria levado um fora? Seja o que for, ele transparecia não saber lidar com esses sentimentos de perda. Já que a raiva era seu principal catalisador, fazendo com que ele se fechasse e torna-se todo esse sofrimento instrospectivo. De diferente modo, Jeferson acabara de passar por um problema parecido e parecia estar superando essa crise com a ajuda dos amigos. Na verdade, a grande moral da história está em ter com quem conversar sobre sua vida amorosa e aprender a lidar com os sentimentos amorosos. Coisa que Brian precisava aprender urgentemente.

- Chegamos pessoas, eu vou levar o Danilo pra conhecer a casa e vocês por favor se divirtam - falou Jacob descendo do carro. Ouvindo do outro lado um gritinho ensurdecedor. Como se tivesse acontecido alguma coisa, ele olha espantado para a lateral do carro. O que deu naquela garota? Pensou. Mas percebeu que era só a nova namoradinha da Gina vindo correndo abraça-la. Que coisa! - Vamos andar um pouco Danilo?
- É claro - e dispararam dali.

Ao ver uma morena de preto, shortinho curto e um emarranhado de cabelos tingidos com mechas de diversas cores dando um gritinho agudo e vindo correndo em direção ao jeep, Jeferson pensou que estava no Halloween, mas ainda não era outubro. Então só podia ser assombração. A garota enfim se cala mais põe a cabeça pela janela e ataca a Gina dando-lhe um beijo avassalador. As duas não sabiam se uma puxava a outra pra dentro do carro ou se arrancava a Gina pra fora do jeep. Logo, ele pensou que só poderia ser a namorada dela. Fora do carro a Gina não teve tempo de dar tchau e some pra de vista.

O carro ficou ali mesmo, estacionado no acostamento da rua, em frente à um casa suntuosa de primeiro andar. Quando percebeu que estavam sozinhos no jeep, Brian resmungou algo sobre a chave do carro e resolveram entrar na festa à procura de Jacob e Danilo.

- Só sobrou nós então, vamos lá dentro? Eu conheço a casa. É da Any Barracuda, a racha mais conhecida da cidade.

Ao entrarem na casa, passaram pela enorme sala de estar com um daqueles lustres enormes há uns três metros e meio de altura. Parecia que a casa tinha uns cinco metros só de pé direito. Muita gente no salão principal, fez com que só sobrasse um corredor com gente passando pra lá e pra cá. Era impossível conversar civilizadamente porque o barulho não deixava - Vamos andando até o quintal onde fica a piscina - gritou para Jeferson que vinha logo atrás. E atravessaram pela sala de jantar para um porta que dava nos fundos da propriedade. Ao chegarem na beira da piscina, logo perceberam que uma coroa loira de cabelos curtos vinha ao encontro de Brian. Era a anfitriã da festa.

- Tá uma loucura isso aqui, porque não vieram mais cedo? Disse Any.
- A gente tava no Frick's e trouxemos companhia. Esse aqui é o Jeferson, amigo do Danilo. Ele deve tá em algum lugar aqui com o Jac, você os viu?
- O Jac já me apresentou aquele garotinho - falou Any mais forte em seu ouvido - Mas eu não conhecia você - e se virou para cumprimentar Jeferson.
- Bela casa - retrucou ele.

- Sinto muito querido... - virando-se  novamente para Brian - ... mas a festa é nossa e nosso Jac não quer ser incomodado. Ele tá em um dos quartos-sul lá em cima. É possível que você o encontre por aí a qualquer momento. Voltem pela copa tem garçom servindo drinks por lá. Beijos!
E saiu apressada. Realmente a festa começara a bombar, porque quanto mais alto o som estava, mais gente estacionava na frente da casa e tentava chegar até a piscina. Porém, já pensando numa tentativa frustrada de pegar a chave do jeep, Brian ativou manualmente o pino de travamento de cada porta antes de deixar o carro. Quando olhou pra Jeferson ao seu lado e gritou.

- E ai, o que tá achando da festa?
- Tá muito barulho aqui, não?
- Tem uma varanda lá em cima, o que acha da gente pegar uma bebida e subir lá?
- Claro! Gritou Jeferson de volta.

E rapidamente passaram pela copa, e serviram-se de vodka com refrigerante. Em seguida, subiram as escadas e seguiram em direção aos quartos do corredor norte da casa. Aquela com certeza era uma das maiores casas já vistas daquele lugar e agora como lá embaixo não tinha muito espaço por metro quadrado por pessoas se alcoolizando, ouvindo música nas alturas. E como não poderia faltar, muita paquera e beijaço à vontade. As festas de Any Barracuda eram conhecidas na região por serem uma baita de umas festas GLS, ou seja, como ela era lésbica e a maior parte de seus amigos,  então todos que frequentassem àquela casa não veriam nenhum problema em ver dois homens ou duas mulheres se beijando.

Ao passar pelo corredor em direção à varanda, Jeferson contou oito portas só  daquele lado. E pensou estar num hotel e não numa casa. A música reverberava nas paredes do corredor tornando aquele ambiente ainda mais imsuportável. Quando enfim, chegaram a uma porta de vidro que dava numa ante-sala com poltrona, cadeiras e uma mesa decorada com um vaso de flores. Pareceu ótimo aos ouvidos de Jeferson quando ao entrarem no ambiente, Brian recostou a porta de volta e percebeu que com isso dimunuíra metade do som ambiente.

- É, aqui tá bem melhor agora - falou normalmente Jeferson, sentando-se em uma poltrona ao lado do sofá. Como se já conhecesse a casa, Brian põe seu copo na mesa e se joga no sofá macio e felpudo. Agora eles poderiam iniciar uma conversa tranquila e se conhecer melhor.
- A noite está linda hoje, não acha? - disse Brian, puxando assunto.
- Sim, está muito linda com essa lua cheia. Mas eu ainda não entendi porque você ficou com raiva esse tempo todo. Não vai me contar  mesmo? - e continuou.
- ...Olha, o Danilo é meu melhor amigo e eu me senti melhor quando contei sobre o meu ex-namorado sabe. Por que você não faz o mesmo?
- Eu não sou muito de falar sobre meus lances - retrucou Brian - mas posso responder sua pergunta. Eu estou puto da vida porque não queria vir pra cá e encontrar uma pessoa. Mas daí o Jac convidou  vocês pra virem com a gente e eu não tive escolha se não acompanhar.
- Nossa, mas vocês namoravam? O que aconteceu? Eu não estou entendendo.
- A gente se pegava e eu me apaixonei sem querer. Hoje eu fui pedi-lo em namoro. E olha a minha cara de feliz.
- Entendo.
- Eu é que não entendo porque você namorou o Fabrício. Não é por nada, mas todo mundo sabe que ele não é de confiança - disparou o ruivo.

- Eu não sabia... - disse surpreso, ao perceber que eles não se conheciam antes mas Brian já sabia um pouco da sua vida e principalmente, o nome de seu ex-namorado - Vem cá, como sabe o nome dele?
- O Jac me contou no Frick's. Ele sabe de tudo naquela escola e é do time de futebol desde o ano passado. Acho que o Fabrício contou algum segredo pra ele. Ou ele deve saber de muitos segredos do time, pra poder se defender. Não é a tôa que ele é o capitão do time pela segunda vez.
Ouvindo isso e praticamente sem chão, Jeferson se dirige para a varanda e fica perdido na imensidão do céu estrelado daquela noite. Brian percebendo que disse algo errado, deixa o sofá e tenta prestar atenção no que ele está olhando. Por um tempo os dois ficaram quietos quando ele ouve.

- Sabe, depois de tudo isso eu só quero encontrar alguém que me assuma de verdade. O Fabrício foi um erro. E você? O que quer pra você agora que tá sozinho?
- Eu ainda quero alguém pra me chamar de meu amor sem ter que esconder de ninguém - confessou Brian sem olhar pro lado.
- Eu também - disse Jeferson surpreso - E o que acontecesse com a gente agora?
- Sei lá? Você que sabe. Eu gostei de você.
- Eu também.

- Você só fala "eu também"? Disse Brian rindo, dessa vez encarando aquele olhar negro que refletia a lua cheia e o céu estrelado à sua frente. Como se entendessem um ao outro, e queimando por dentro, eles se aproximaram quando Jeferson sentiu firme sua cintura ser levemente agarrada. Brian também recostou sua mão direita próximo à nuca dele e lhe fez um cafuné. Então, após um beijo molhado e suculento, Jeferson abriu novamente os olhos e reparou em um sutil detalhe. Numa varanda iluminada, e diante deles naquele céu estrelado estava a lua cheia, que havia testemunhado tudo naquela noite. Inclusive aquela paixão inesperada.
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