Depois de toda aquela situação, um tanto inusitada, Jeferson teria de
chegar a todo custo no Frick's. Uma lanchonete estilo americana, com um
daqueles balcões enormes de ponta a ponta. Na verdade, o Frick's se
tornara o pont da cidade mais frequentado por grupos de amigos e pessoas
que adoram jogar conversa fora. Mas naquele dia, estava mais para um
porto seguro para Jeferson onde ele poderia ancorar seu coração e
desafogar suas mágoas com o marujo Danilo, seu melhor amigo.
Ao
despontar na esquina logo viu um letreiro luminoso destacando uma
construção no fim da rua. Uma antigo prédio rústico com ares vintage
abrigava a lanchonete. E ja está lotando, pensou ele na
esperança de que Danilo já estivesse lá dentro à sua espera. Ao entrar
no recinto pela porta lateral, apontou seu olhar para a última mesa que
ficara em frente a porta principal onde costumam sentar na maioria das
vezes. E lá estava ele, Danilo se levantara e dera um forte abraço no
amigo que ali chegara. Como se o mundo não importasse para eles nem as
pessoas ao seu redor, aquele fora o abraço mais demorado da face da
terra.
- Pensei que nunca ia chegar irmão, senta aí e me conta esse lance direito - apontou Danilo para a cadeira à sua frente.
-
Já está tudo resolvido. Não tenho mais nada a ver com aquele carinha,
não. Dei uma lição nele agorinha - disse Jeferson de cabeça baixa em tom
de desânimo. Contudo, surpreso, seu amigo apoia carinhosamente a sua
mão direita em seu queixo e ergue vagarosamente sua cabeça.
-
Então é por isso que você está abatido? Você o encontrou na vinda pra
cá? Ele te fez algum mal? O que aconteceu de verdade? Disparou seu
amigo, agora olhando firme em seus olhos.
O olhar incisivo de
Danilo fizera as bochechas de seu melhor amigo corarem. E por mais
doesse falar disso, jeferson sentiu nele uma preocupação jamais vista,
como se quisesse protegê-lo. Então, depois de um leve sorriso decidiu
contar sobre o encontro no beco e o desabafo repulsivo que teve ao ver
seu ex com outra pessoa.
Em meio a conversa, jeferson reparou que
seu amigo olhara curioso pra mesa mais a frente onde estavam sentado um
garoto de jaqueta preta que aparentemente era o cara mais alto da mesa.
Com ele estavam uma garota ruiva, toda caracterizada no estilo punk como
se fosse pra algum show de rock. E um garoto ruivo de cara fechada que
parecia estar sempre com raiva. Todos na mesa pareciam prestar atenção
enquanto a garota tagarelava uma história que atraía a atenção dos
garotos. Por que ele olha tanto pra aquela mesa? pensou ele,
quando notou que Danilo não foi nada discreto seguindo com um olhar
curioso o garoto de jaqueta que seguia em direção ao balcão para pedir
uma bebida.
- O que? Não acredito que você tá afim daquele carinha ali? O que você viu nele?
- Sei lá! Só achei ele bonitinho - retrucou Danilo.
- Bonitinho é sinônimo de feio, sabia? replicou Jeferson.
Dando
de ombros, Danilo parecia não se importar com a deixa do amigo e não
parava de olhar pro balcão. Enquanto Jeferson pensava. Eu aqui descarregando minhas ilusões e ele precisando descolar. Lembrava
o quanto o amigo gostava dele de maneira quase fraterna. E se lembrou
de quando mudou de escola, Danilo implorou aos seus pais para que lhe
transferissem também. Eles se conheciam desde o colegial e entendendo o
laço de amizade entre os dois, os Campos cederam ao pedido do filho. Até
porque os Campos eram amigos há anos da família Bittencourt e criaram
esse forte laço de amizade também no colegial. Hum, acho que tive uma ideia!
-
Pois eu aposto que você consiga falar com ele naquele balcão sem pagar
nenhum mico - disparou Jeferson. Como se entendesse o recado, Danilo
levanta imediatamente e segue em direção ao balcão devagar o suficiente
para perceber que o garoto de jaqueta pedia uma ice ao garçom e resolveu
interferir no pedido.
- Duas, por favor - gesticulou apressadamente.
- Não sabia que gostava de ice - falou surpreso o garoto de jaqueta.
- Eu também tenho gostos excêntricos - respondeu sentando ao lado do carinha.
-
Não vai pedir alguma coisa pro seu namorado beber? Desculpa, é que não
pude deixar de reparar no abraço de vocês deram agora a pouco.
- Imagina, ele não é meu namorado. Jefinho e eu somos grandes amigos.
- Temos uma festinha pra ir daqui há uns 20 minutos. Você topa? Perguntou esperançoso.
- Seria legal mas não posso deixar meu amigo sozinho.
- Desculpa, eu sou Jacob.
- Danilo.
- Então leva ele. Tem espaço pra mais um no meu carro. Daqui há 20 minutos lá fora?
-
Claro - Disse Danilo sorrindo de volta. Quando já ia voltando pra mesa
Jacob o chamou. Ao se virar percebeu que havia esquecido de levar a
garrafa de ice - Ah, quase esqueci. Que vergonha, pensou ele
voltando à mesa e lembrando que perdera a aposta com Jeferson de não
pagar mico ao ir falar com o garoto de jaqueta.
- Bem, Jacob me convidou pra ir a uma festinha mas eu falei que estava com você e só aceitaria ir se fosse comigo.
-
Festinha? Jacob? Nossa, você é rápido hein. Se eu te conheço, você já
topou de cara antes de vir aqui falar comigo - disse Jeferson
desconfiado.
- É...
- Tudo bem, eu disse a mamãe que iria durmir na sua casa. Mas pra onde a gente vai? Disparou ele curioso.
-
Ah sei lá, contanto que estejamos bem acompanhados - disse Danilo
soltando esse gracelo, mas com a consciência pesada - E a propósito,
você ganhou a aposta, tá? - e falou mais baixo ainda querendo que
ninguém ouvi-se isso - Eu esqueci a garrafa de ice no balcão quando vir
pra cá.
Como bons amigos deram risadas e conversaram sobre algumas
coisas enquanto terminavam de comer. Danilo parecia ansioso, espiando o
relógio do celular minuto a minuto. Quando Jeferson lhe fez sinal de
que o garoto de jaqueta pedia a conta. Fizeram o mesmo. Porém, na hora
da saída usaram a porta principal, vendo que os três saíam pela lateral
do Frick's. Seguindo na direção do garoto de jaqueta eles perceberam que
sua carona para aquela festa seria num jeep. Não um desses qualquer,
mais um modelo super sofisticado e atual.
- Oi Jacob, estamos aqui. Esse é meu amigo Jeferson - falou Danilo meu desajeitado.
-
Vamos andando então? A Gina já está dentro do carro! Jeferson, você se
importa de ir atrás com a Gina e o Brian? Já abrindo a porta
traseira-esquerda pra ele. Logo em seguida, deu uma piscadela pro Brian
que ainda estava do lado de fora e ele entendeu o recado e entrou em
seguida.
- Segurem-se - disse Jacob saindo apressadamente do
estacionamento de ré e em seguida entrando bruscamente com o jeep na
avenida cantando pneu, o que fez todos no carro vibrarem - Ah, quase
esqueci. Pessoal, esse aqui na frente é o Danilo e esse aí atrás é o
Jeferson, nossos convidados pra festa. Meninos, vos apresento a dama e o
vagabundo. Gina e Brian - ironizou ele. O que fez Brian fechar mais
ainda a cara dentro do carro.
- Para com isso, ôh palhaço - disse
Brian irritado com aquela situação. Jeferson percebeu que alguma coisa
tinha alterado o humor daquele garoto ruivo e marrento muito antes deles
entrarem no Frick's e resolveu puxar assunto.
- Eu não sei o que
aconteceu com você, Brian, mas eu passei um dia de cão hoje. Depois de
ter namorado um tempão escondido, meu ex ter terminou comigo por carta, e
meia hora depois de lêr aquele troço eu o encontro num beco se pegando
com outro carinha. Tá pouco ou quer mais?
- Pensei que fosse só eu que tivesse que esconder um amor? Disse Brian ainda olhando pela janela.
-
É esse negócio é complicado mesmo. Eu tô decidido a não cair mais nessa
pra não ser largado a tôa - retrucou Jeferson. Já sabendo onde estava a
ferida, decidiu cutuvar a expressiva truculência de Brian - Mas o que
aconteceu pra você ficar desse jeito? Tá sofrendo por amor?
Um
silêncio inquietante pairou dentro do jeep, todos querendo ouvir o que
Brian tinha a dizer. Jacob olha pelo retrovisor e vê que ele ainda
olhara de braços cruzados pela janela sem coragem de encarar ninguém
dentro do carro e resolve interferir.
- Qual é Brian, dá uma chance pro cara aí. Eu e a Gina também queremos saber, afinal, a gente ama você.
-
É, conta aí maninho - disse Gina, balançando e tentando descruzar os
braços do irmão. Quer dizer, todos percebem que ambos são irmãos pela
incrível semelhança genética que lhes forneceu uma cor levemente
alaranjada aos seus cabelos e as sardas inevitáveis que os ruivos têm em
comum. Brian percebera que não poderia ficar calado, a não ser que
quisesse estragar o clima de festa antes mesmo dela começar. E decidiu
falar alguma coisa.
- Gente, eu só não entendo o que leva um
pessoa a brincar com os sentimentos dos outros e não querer levar um
namoro a sério. Isso é patético. Digo... sei lá, eu acabei descobrindo
isso da pior maneira - desabafou.
Não precisou dizer mais nada. Aliás, ele não disse muita coisa, só desabafou o que estava acontecendo ironicamente.
Será
que Brian gostara de alguém que não o correspondeu? Ou será que ele
teria levado um fora? Seja o que for, ele transparecia não saber lidar
com esses sentimentos de perda. Já que a raiva era seu principal
catalisador, fazendo com que ele se fechasse e torna-se todo esse
sofrimento instrospectivo. De diferente modo, Jeferson acabara de passar
por um problema parecido e parecia estar superando essa crise com a
ajuda dos amigos. Na verdade, a grande moral da história está em ter com
quem conversar sobre sua vida amorosa e aprender a lidar com os
sentimentos amorosos. Coisa que Brian precisava aprender urgentemente.
-
Chegamos pessoas, eu vou levar o Danilo pra conhecer a casa e vocês por
favor se divirtam - falou Jacob descendo do carro. Ouvindo do outro
lado um gritinho ensurdecedor. Como se tivesse acontecido alguma coisa,
ele olha espantado para a lateral do carro. O que deu naquela garota? Pensou. Mas percebeu que era só a nova namoradinha da Gina vindo correndo abraça-la. Que coisa! - Vamos andar um pouco Danilo?
- É claro - e dispararam dali.
Ao
ver uma morena de preto, shortinho curto e um emarranhado de cabelos
tingidos com mechas de diversas cores dando um gritinho agudo e vindo
correndo em direção ao jeep, Jeferson pensou que estava no Halloween,
mas ainda não era outubro. Então só podia ser assombração. A garota
enfim se cala mais põe a cabeça pela janela e ataca a Gina dando-lhe um
beijo avassalador. As duas não sabiam se uma puxava a outra pra dentro
do carro ou se arrancava a Gina pra fora do jeep. Logo, ele pensou que
só poderia ser a namorada dela. Fora do carro a Gina não teve tempo de
dar tchau e some pra de vista.
O carro ficou ali mesmo,
estacionado no acostamento da rua, em frente à um casa suntuosa de
primeiro andar. Quando percebeu que estavam sozinhos no jeep, Brian
resmungou algo sobre a chave do carro e resolveram entrar na festa à
procura de Jacob e Danilo.
- Só sobrou nós então, vamos lá dentro? Eu conheço a casa. É da Any Barracuda, a racha mais conhecida da cidade.
Ao
entrarem na casa, passaram pela enorme sala de estar com um daqueles
lustres enormes há uns três metros e meio de altura. Parecia que a casa
tinha uns cinco metros só de pé direito. Muita gente no salão principal,
fez com que só sobrasse um corredor com gente passando pra lá e pra cá.
Era impossível conversar civilizadamente porque o barulho não deixava -
Vamos andando até o quintal onde fica a piscina - gritou para Jeferson
que vinha logo atrás. E atravessaram pela sala de jantar para um porta
que dava nos fundos da propriedade. Ao chegarem na beira da piscina,
logo perceberam que uma coroa loira de cabelos curtos vinha ao encontro
de Brian. Era a anfitriã da festa.
- Tá uma loucura isso aqui, porque não vieram mais cedo? Disse Any.
-
A gente tava no Frick's e trouxemos companhia. Esse aqui é o Jeferson,
amigo do Danilo. Ele deve tá em algum lugar aqui com o Jac, você os viu?
-
O Jac já me apresentou aquele garotinho - falou Any mais forte em seu
ouvido - Mas eu não conhecia você - e se virou para cumprimentar
Jeferson.
- Bela casa - retrucou ele.
- Sinto muito
querido... - virando-se novamente para Brian - ... mas a festa é nossa e
nosso Jac não quer ser incomodado. Ele tá em um dos quartos-sul lá em
cima. É possível que você o encontre por aí a qualquer momento. Voltem
pela copa tem garçom servindo drinks por lá. Beijos!
E saiu
apressada. Realmente a festa começara a bombar, porque quanto mais alto o
som estava, mais gente estacionava na frente da casa e tentava chegar
até a piscina. Porém, já pensando numa tentativa frustrada de pegar a
chave do jeep, Brian ativou manualmente o pino de travamento de cada
porta antes de deixar o carro. Quando olhou pra Jeferson ao seu lado e
gritou.
- E ai, o que tá achando da festa?
- Tá muito barulho aqui, não?
- Tem uma varanda lá em cima, o que acha da gente pegar uma bebida e subir lá?
- Claro! Gritou Jeferson de volta.
E
rapidamente passaram pela copa, e serviram-se de vodka com
refrigerante. Em seguida, subiram as escadas e seguiram em direção aos
quartos do corredor norte da casa. Aquela com certeza era uma das
maiores casas já vistas daquele lugar e agora como lá embaixo não tinha
muito espaço por metro quadrado por pessoas se alcoolizando, ouvindo
música nas alturas. E como não poderia faltar, muita paquera e beijaço à
vontade. As festas de Any Barracuda eram conhecidas na região por serem
uma baita de umas festas GLS, ou seja, como ela era lésbica e a maior
parte de seus amigos, então todos que frequentassem àquela casa não
veriam nenhum problema em ver dois homens ou duas mulheres se beijando.
Ao
passar pelo corredor em direção à varanda, Jeferson contou oito portas
só daquele lado. E pensou estar num hotel e não numa casa. A música
reverberava nas paredes do corredor tornando aquele ambiente ainda mais
imsuportável. Quando enfim, chegaram a uma porta de vidro que dava numa
ante-sala com poltrona, cadeiras e uma mesa decorada com um vaso de
flores. Pareceu ótimo aos ouvidos de Jeferson quando ao entrarem no
ambiente, Brian recostou a porta de volta e percebeu que com isso
dimunuíra metade do som ambiente.
- É, aqui tá bem melhor agora -
falou normalmente Jeferson, sentando-se em uma poltrona ao lado do sofá.
Como se já conhecesse a casa, Brian põe seu copo na mesa e se joga no
sofá macio e felpudo. Agora eles poderiam iniciar uma conversa tranquila
e se conhecer melhor.
- A noite está linda hoje, não acha? - disse Brian, puxando assunto.
-
Sim, está muito linda com essa lua cheia. Mas eu ainda não entendi
porque você ficou com raiva esse tempo todo. Não vai me contar mesmo? -
e continuou.
- ...Olha, o Danilo é meu melhor amigo e eu me senti
melhor quando contei sobre o meu ex-namorado sabe. Por que você não faz
o mesmo?
- Eu não sou muito de falar sobre meus lances - retrucou
Brian - mas posso responder sua pergunta. Eu estou puto da vida porque
não queria vir pra cá e encontrar uma pessoa. Mas daí o Jac convidou
vocês pra virem com a gente e eu não tive escolha se não acompanhar.
- Nossa, mas vocês namoravam? O que aconteceu? Eu não estou entendendo.
- A gente se pegava e eu me apaixonei sem querer. Hoje eu fui pedi-lo em namoro. E olha a minha cara de feliz.
- Entendo.
-
Eu é que não entendo porque você namorou o Fabrício. Não é por nada,
mas todo mundo sabe que ele não é de confiança - disparou o ruivo.
-
Eu não sabia... - disse surpreso, ao perceber que eles não se conheciam
antes mas Brian já sabia um pouco da sua vida e principalmente, o nome
de seu ex-namorado - Vem cá, como sabe o nome dele?
- O Jac me
contou no Frick's. Ele sabe de tudo naquela escola e é do time de
futebol desde o ano passado. Acho que o Fabrício contou algum segredo
pra ele. Ou ele deve saber de muitos segredos do time, pra poder se
defender. Não é a tôa que ele é o capitão do time pela segunda vez.
Ouvindo
isso e praticamente sem chão, Jeferson se dirige para a varanda e fica
perdido na imensidão do céu estrelado daquela noite. Brian percebendo
que disse algo errado, deixa o sofá e tenta prestar atenção no que ele
está olhando. Por um tempo os dois ficaram quietos quando ele ouve.
-
Sabe, depois de tudo isso eu só quero encontrar alguém que me assuma de
verdade. O Fabrício foi um erro. E você? O que quer pra você agora que
tá sozinho?
- Eu ainda quero alguém pra me chamar de meu amor sem ter que esconder de ninguém - confessou Brian sem olhar pro lado.
- Eu também - disse Jeferson surpreso - E o que acontecesse com a gente agora?
- Sei lá? Você que sabe. Eu gostei de você.
- Eu também.
-
Você só fala "eu também"? Disse Brian rindo, dessa vez encarando aquele
olhar negro que refletia a lua cheia e o céu estrelado à sua frente.
Como se entendessem um ao outro, e queimando por dentro, eles se
aproximaram quando Jeferson sentiu firme sua cintura ser levemente
agarrada. Brian também recostou sua mão direita próximo à nuca dele e
lhe fez um cafuné. Então, após um beijo molhado e suculento, Jeferson
abriu novamente os olhos e reparou em um sutil detalhe. Numa varanda
iluminada, e diante deles naquele céu estrelado estava a lua cheia, que
havia testemunhado tudo naquela noite. Inclusive aquela paixão
inesperada.

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