ENTREVISTA COM O ESCRITOR MATO-GROSSENSE JOSÉ RICARDO MENACHO


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O escritor mato-grossense José Ricardo Menacho Tramarin de Oliveira Carvalho, além das agilidades na colheita das letras e arte das palavras, também é Professor efetivo do Curso de Direito da Universidade do Estado de Mato Grosso, Campus Universitário de Cáceres (Unemat/Cáceres). Formado em Direito pela UNEMAT (2012). É Mestre em Direitos Humanos e Democracia pelo Programa de Pós-graduação em Direito da Universidade Federal do Paraná (2015). É membro da Clínica de Direitos Humanos e Meio Ambiente da Unemat/Cáceres. É Presidente da Comissão de Ética da Universidade do Estado de Mato Grosso. É membro do Conselho Editorial da Editora da Universidade do Estado de Mato Grosso. Foi Diretor de Gestão Acadêmica da Pró-Reitoria de Ensino de Graduação. Tem interesse nas áreas de gestão de ensino de graduação, direitos humanos, direitos sociais trabalhistas e Análise de Discurso. Também, escreve para o jornal Correio Cacerense. É autor dos livros O Plural do Diverso: conversas sobre a dignidade humana e Sarau, e concedeu uma entrevista à Bruna Negreiros Silva (Acadêmica de Direito da UNEMAT/Pontes e Lacerda) e ao Poeta Vagner Braz (Acadêmico de Mestrado em Linguística da UNEMAT/PPGL/Cáceres. Confiram!



Vagner Braz: O desejo de escrever veio desde cedo ou um fato marcante que fez florescer a vontade de criar narratividades?

José Ricardo Menacho: Para mim, a escrita sempre foi um caminho de libertação. Libertação de meus medos, de minhas incertezas, de minhas inseguranças, de minhas ansiedades e de minhas angústias. Às vezes, as ideias ficam pipocando na cabeça da gente, como se estivessem dentro de uma panela de pressão. Digamos que a escrita sempre (ou seja, desde muito cedo) foi uma espécie de divã para análises terapêuticas (as minhas análises). Pois é, meus caros, cada louco com suas manias, risos.

Bruna Negreiros Silva: Seu principal foco são os contos? O que mais gosta de escrever?

JRM: Penso que eu não tenha ainda muita habilidade para compor um conto. Diferentemente do meu brilhante amigo, o Professor Vagner Braz, dentre outros sensíveis escritores mato-grossenses, não tenho a acuidade e o talento para isso. O que escrevo são crônicas ou ensaios, textos que nascem de um instante vivido, de um contexto que me impressionou (ou que me impressiona).


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VB: Qual foi sua principal inspiração para o livro "o plural do diverso: conversa sobre a dignidade humana"?

JRM: Estou abusando dos advérbios nas minhas respostas, mas vamos lá, isso não fará mal a ninguém, não é mesmo? Risos. Então, por desde sempre gostar de escrever (desde muito cedo, como comentei na resposta da primeira pergunta), sempre quis, de certa forma, publicar um livro [...]. Acho até que seja meio que um sonho de todo aspirante a escritor (como ainda me considero). Primeiro, comecei com os textos para os Jornais (houve épocas em que por semana eu encaminhava até dois textos para o Jornal Correio Cacerense). Depois, comecei a redigir discursos militantes, levantando algumas bandeiras, tais como: a justiça social, os direitos humanos, a política, o feminismo e a democracia, para o meu blog, bem como para as redes sociais de modo geral (Facebook e Instagram).
E, depois de ter “avolumado” um número significativo de textos, juntando com outros ainda inéditos, resolvi organizá-los em um livro. Mas o meu desejo era o de organizar um livro que não fosse um mero amontoado de redações, mas que partisse de um ponto comum, cujos textos fossem costurados por um fio condutor, que, no caso, foi a categoria “dignidade humana”. Por isso inclusive, que a segunda parte do título é: “conversas sobre a dignidade humana”. Digamos que o livro foi mais um canal possível de comunicação (e, principalmente, interação) com o leitor, para além do que eu já vinha fazendo.

BNS: Qual a sua opinião sobre o machismo na sociedade contemporânea e o movimento feminista que é tão presente no livro?

JRM: O machismo é um mal violento e pernicioso que, cotidianamente, dado o seu grau de enraizamento em nossa sociedade, precisamos desconstruir. Não pensem que, por vezes, eu mesmo, um apoiador dessa desconstrução, não me pegue reproduzindo comportamentos e ideias machistas. Como disse, o machismo está enraizado, sobretudo na consciência e mentalidade das gerações mais antigas (se hoje esse imaginário ainda ganha projeção na socialização dos sujeitos, avaliem como incidiu e permeou a educação, os modos e o pensar dos sujeitos nos tempos de outrora). O machismo parte do pressuposto de que a mulher se encontra em um patamar inferior, subalterno, desprezível em relação ao homem. A mulher, sem exageros, sob essa perspectiva, passa inclusive a ter a sua própria condição humana colocada em xeque, como se fosse um ser humano de segunda classe, o que, convenhamos, é um absurdo. Mas fiquem atentos, o machismo também se espraia por outros terrenos, negando tudo o que fuja dos padrões da masculinidade, tudo que, de alguma forma, segundo o entendimento comum, fuja às características do que se espera do “macho”. Criticar (e combater) o machismo (ou buscar a sua desconstrução) não é mimimi, não é conversa fiada, não é papo de gente histérica, é ato de coragem, é ato de insurgência e resistência.

Quanto ao feminismo, posso dizer que sou um apoiador da causa. Prefiro não dizer que sou um feminista, pois o protagonismo em si do movimento é das mulheres, as mulheres sim, portanto, são feministas. Nós, homens, ou as pessoas que se identificam com o gênero masculino, apoiamos, o que também já é uma grande coisa. E digo mais sobre isso. Um apoiador não deve sê-lo só de boca, tipo, só no discurso, é preciso contribuir, de alguma forma, para a agenda do movimento, por isso, não por moda, ou por interesse em granjear mais adeptos, que assumi o compromisso de escrever sobre a temática, nem que fosse como uma estratégia de provocação, de estímulo, no intuito de suscitar debates e reflexões a respeito.

VB: Você como pessoa e como escritor já vivenciou alguma situação em que agiu com tolerância mesmo sendo contrário a tal ideia?

JRM: Não acredito em tolerância. Tolerância, para mim, é engolir em seco, é falsamente incluir, é um incluir excluindo. Tolerância, para mim, já é uma intolerância. Acredito em um diálogo plural e aberto. Acredito em compartilhamento de ideias, na construção de um espaço (de), (da) e (para) a diferença.

BNS: O que te levou a escolher direito como área de estudo?

JRM: A carreira, ademais de contribuir para a compreensão da dinâmica de manifestações, relações e experiências em sociedade, à luz da dignidade humana, dá-nos, por meio dos conhecimentos e das mais diversas possibilidades de diálogos e debates experimentados, subsídios para promover profundas transformações na realidade na qual estamos inseridos. 
Registro que dentre os episódios marcantes de minha vida profissional já vivenciados, com lembranças de extrema realização, desponta-se a elaboração do primeiro parecer jurídico-pedagógico, no âmbito da Universidade do Estado de Mato Grosso, acerca da utilização de nome social por discente, cujo nome civil não correspondia com a sua identidade de gênero. Essa ação, com fundamento imediato na Resolução nº 12/2015, do Conselho Nacional de Combate à Discriminação e Promoções dos Direitos LGBT, por certo, acabou por afinar o discurso institucional com os compromissos socioeducacionais da ordem constitucional brasileira vigente, ratificando ainda mais a nossa posição como espaço aberto de ensino, pesquisa e extensão, capilarizado pelos mais verdes rincões do estado de Mato Grosso. 


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